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Emagrecer com músculo: os testes e as atitudes que ajudam a lidar com o dilema das canetas

  • Cesar Moutinho
  • há 11 horas
  • 4 min de leitura
Exercícios musculares requer acompanhamento do profissional de educação física

Exercícios musculares requer acompanhamento do profissional de educação física



Uma mulher perde 18 quilos em um ano com semaglutida. Ela comemora o número na balança — mas sobe uma escada e sente as pernas fracas, carrega uma sacola de compras e nota que o braço cansa mais rápido do que antes.


A cena, cada vez mais comum nos consultórios de endocrinologia, resume a discussão que tomou conta do congresso ENDODEBATE em  sua 10ª edição reunindo médicos de todo o país: o debate sobre as canetas (e os comprimidos que podem chegar em breve) não deveria girar em torno de quantos quilos se perde, mas do que exatamente se perde.


Em outras palavras, quanto se elimina de gordura em si, de onde ela vem, e quanto se retirou de músculo no processo de emagrecimento.


Estudos com as principais drogas de última geração, semaglutida e tirzepatida, mostram reduções de peso corporal que vão de 15% a mais de 22%. Mas parte dessa perda pode ser músculo, não gordura.


Ensaios clínicos indicam que, sem intervenções adequadas, uma parcela do peso eliminado com agonistas de GLP-1 pode ser massa magra — o que abre caminho para um quadro conhecido como obesidade sarcopênica, em que a pessoa fica mais enxuta na balança, mas proporcionalmente mais fraca e com mais gordura visceral do que músculo.


Nem sempre é assim. Um estudo apresentado no Congresso Europeu de Obesidade de 2025, com 200 adultos tratados por seis meses com semaglutida ou tirzepatida, mostrou que mulheres perderam em média 10,8 kg de gordura contra apenas 0,63 kg de músculo, e homens perderam 12 kg de gordura contra 1 kg de músculo — mas isso só aconteceu com acompanhamento médico, orientação nutricional e treino de força junto do tratamento. A diferença entre os dois cenários não está na molécula, está no que é feito ao redor dela.


O que os números da balança escondem


A discussão vai além da quantidade de músculo perdido. Em artigo publicado este ano na revista Diabetes, Obesity and Metabolism, as pesquisadoras Mimi Jensterle e Andrej Janez defenderam que avaliar apenas a massa magra é insuficiente: é preciso olhar também para a qualidade do músculo.


Um exemplo é a mioesteatose — a infiltração de gordura dentro do próprio músculo, medida por ressonância magnética —, que se associa a resistência à insulina, menos força e pior mobilidade.


Na ramificação de uma pesquisa, a tirzepatida reduziu significativamente essa gordura intramuscular, sugerindo que o emagrecimento com essas terapias pode melhorar a qualidade do músculo, e não só reduzir sua quantidade.


É um achado promissor, mas vale a ressalva: é um marcador de imagem, não uma prova direta de que isso reduz quedas, fraturas ou internações — essa ligação ainda precisa ser confirmada em desfechos clínicos concretos.


As lacunas do dia a dia 


Na prática, pouca coisa disso chega à rotina. A maioria das consultas ainda mede sucesso terapêutico em quilos perdidos. Exames de composição corporal como densitometria (DEXA) ou bioimpedância não são acessíveis a todo paciente, seja pelo custo no consultório privado, seja pela falta de incorporação rotineira desse tipo de avaliação nos protocolos de obesidade do SUS.


Não há exigência regulatória — nem da Anvisa, nem em diretrizes de incorporação da Conitec — de que a avaliação funcional preceda ou acompanhe a a prescrição das canetas. O resultado é um paciente que sai da consulta sabendo quanto pesa, mas não sabendo o que perdeu.


Cinco testes simples que cabem na consulta


A boa notícia é que avaliar a qualidade da perda de peso não exige aparelho caro. Diretrizes de sarcopenia recomendam dois exames de bancada: o dinamômetro de preensão manual e o teste de sentar e levantar da cadeira, considerando-se força reduzida quando a preensão fica abaixo de 27 kg em homens ou 16 kg em mulheres, e desempenho comprometido quando o paciente leva mais de 15 segundos para levantar e sentar cinco vezes.


Depois vem o teste de caminhada, que não exige nada além de cronômetro e fita métrica. Na prática, demarca-se um percurso de 4 metros em linha reta e, sempre que o espaço permitir, acrescentam-se mais 2,5 metros antes e depois, para o paciente acelerar e desacelerar sem prejudicar a medida.


Pede-se então que ele caminhe no seu ritmo habitual — como se estivesse indo a uma loja — sem apressar o passo, podendo usar bengala ou andador se costuma usá-los no dia a dia. O cronômetro é acionado quando o paciente começa a se mover e travado no instante em que o primeiro pé cruza completamente a linha final.


Dividindo a distância pelo tempo, um resultado abaixo de 0,8 metro por segundo — ou mais de 5 segundos para os 4 metros — indica desempenho físico comprometido, segundo o consenso europeu de sarcopenia.


Por último, a circunferência da panturrilha, talvez a medida mais simples de todas. Com o paciente em pé e os pés afastados cerca de 20 cm, envolve-se a panturrilha com uma fita métrica no ponto de maior volume, perpendicular ao eixo longitudinal da perna — como esse ponto pode variar, o ideal é deslizar a fita para cima e para baixo até encontrar a maior medida.


Um estudo brasileiro que validou a técnica ante a densitometria (DEXA) encontrou os pontos de corte de 34 cm para homens e 33 cm para mulheres, com boa sensibilidade e especificidade para detectar massa muscular reduzida; medidas abaixo desses valores sugerem perda muscular e justificam investigação mais aprofundada.


Por fim, um item pouco lembrado: manter a carteira de vacinação em dia. Parece deslocado do tema, mas não é — a sarcopenia acomete entre 13% e 24% dos pacientes internados, e evitar hospitalizações evitáveis (com vacinas contra gripe, pneumonia e outras doenças imunopreveníveis) é também uma forma de proteger o músculo, já que a imobilidade hospitalar acelera a perda muscular de forma desproporcional.


O tripé que sustenta o músculo


Diretrizes recentes de tratamento da obesidade recomendam ingestão proteica entre 1,2 e 1,6 g por quilo de peso ao dia, distribuída ao longo das refeições, além de ao menos um teste funcional na avaliação clínica de rotina.


O treino resistido (ou musculação), feito de duas a três vezes por semana com progressão gradual, é apontado como o o componente mais importante da estratégia — sem ele, a perda de peso farmacológica pode acontecer às custas de músculo.


O debate das canetas emagrecedoras — injetáveis ou, em breve, em comprimido não deveria mais ser “qual reduz mais peso”. A pergunta que a ciência está fazendo agora é outra: como emagrecer preservando o corpo que sustenta a vida?



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