Quem venceu o debate entre Flávio Bolsonaro e Lula na Band, segundo professor da USP

“Não houve troca de ideias, não houve exatamente uma confrontação de pensamentos”
Flávio Bolsonaro chegou ao primeiro debate presidencial mais preparado para produzir vídeos para as redes sociais, mas não para discutir propostas, na avaliação de Luiz Alberto Farias, professor titular de Opinião Pública da USP. Para o especialista, o candidato do PL teve maior domínio da apresentação, enquanto Lula perdeu o controle do tempo e se deixou envolver pelas provocações do do adversário. O resultado, segundo ele, foi um confronto que pouco contribuiu para mobilizar eleitores ainda distantes das duas candidaturas.
“Parecia muito mais uma série de posts, todos eles com o objetivo de lacrar”, afirmou Farias no Ponto de Vista desta segunda-feira, 19, apresentado por Laísa Dall’Agnol. Ao analisar o encontro realizado no domingo pela Band, o professor questionou a predominância da disputa por atenção sobre a discussão de ideias: “Não houve troca de ideias, não houve exatamente uma confrontação de pensamentos”.
Em que Flávio levou vantagem sobre Lula?
Segundo Farias, Flávio demonstrou maior preparação nos gestos, no olhar e na movimentação pelo palco. Na interpretação do professor, essa atuação tinha como objetivo principal gerar material para circular depois do programa. “Foi um candidato preparado para ir para as redes”, disse. O especialista, porém, criticou o conteúdo das intervenções e afirmou que o candidato evitou responder às perguntas, substituindo as respostas por novos questionamentos.
Sobre Lula, Farias avaliou que a experiência política não se traduziu em domínio do formato. Para ele, o petista tinha mais conteúdo a apresentar, mas se perdeu em alguns momentos, demonstrou nervosismo e encontrou dificuldades para administrar o próprio tempo. O professor também considerou que a dinâmica do encontro não favoreceu o presidente.
Os cortes conseguem conquistar votos fora das bolhas?
Farias demonstrou ceticismo quanto ao potencial dos vídeos selecionados pelas campanhas para ampliar o apoio aos candidatos. Embora tenha identificado uma preparação mais direcionada de Flávio para esse material, o professor ponderou que os cortes dos dois lados tendem a circular entre pessoas que já fizeram sua escolha. “Normalmente é pregar para convertidos tanto de um lado quanto de outro”, afirmou.
O especialista também questionou o efeito das expressões e dos gestos de Flávio enquanto Lula falava. Na avaliação dele, esse comportamento pode agradar aos apoiadores do candidato do PL, mas causar uma impressão negativa em quem espera seriedade do confronto. Para Farias, os dois candidatos acrescentaram pouco à tentativa de atrair quem se absteve ou votou em branco e nulo no primeiro turno.
O formato dos debates precisa mudar?
O professor defendeu uma reavaliação do bloco livre, no qual cada candidato dispunha de quinze minutos para administrar suas intervenções. Segundo ele, a busca por audiência e por cenas de confronto tem ocupado o espaço que deveria ser dedicado ao aprofundamento dos temas. “Eu acho necessário que os debates sejam focados em conteúdo”, disse.
Para Farias, a possibilidade de mudar de assunto sem responder ao que foi perguntado prejudica a discussão. Ele identificou esse comportamento de maneira mais acentuada em Flávio e argumentou que regras mais contidas poderiam limitar as provocações. Ao comparar o encontro com debates anteriores, o professor também cobrou mais respeito entre os adversários e maior preocupação com as propostas.
O que pode mudar no debate da Globo?
Para o próximo encontro, marcado para sexta-feira na TV Globo, Farias acredita que Flávio manterá uma postura agressiva e voltada à produção de cortes. Já Lula, em sua avaliação, precisa rever a preparação, preservar a serenidade e evitar que as provocações determinem suas respostas. “Não dá para fazer mágica em uma semana”, ponderou.



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