Deputado estadual eleito Marcio Cannela continua preso na Operação Unha e Carne

Marcio Canella foi preso pela segunda vez em três meses
Márcio Canella (União), o segundo deputado estadual mais votado no Rio de Janeiro em 2026, recebeu 83% dos votos em áreas controladas por grupos criminosos armados, como milícias e facções criminosas. O político foi preso nesta manhã na operação Unha e Carne da PF (Polícia Federal).
Os dados são de levantamento de Bruno Pantaleão, pesquisador do Centro de Segurança Pública e Analytics da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e do Centro de Política e Economia do Setor Público da FGV.
Entre os votos de Canella, 32,7% vieram de regiões dominadas por milicianos, 32,7% de áreas controladas pelo CV (Comando Vermelho) e 17,6% em localidades do TCP (Terceiro Comando Puro).
"O que distingue as áreas de governança criminal são casos específicos de dobradinhas: um federal e um estadual acima de 30% no mesmo local de votação", diz Pantaleão em entrevista ao UOL.
O presidente nacional do União, o pernambucano Antônio Rueda, foi eleito deputado federal no Rio de Janeiro em dobradinha com Canella. Rueda recebeu 77% dos votos em áreas controladas por grupos criminosos em 2026, sua primeira eleição disputada no Rio.
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A dupla Canella e Rueda foi a mais votada em 88 locais de votação, sendo 84 desses locais com domínio de grupos criminosos armados. "É a dupla mais forte nas áreas de governança criminal. Nenhum dos dois divide o local de votação com outro parceiro", afirma Pantaleão.
A PRE (Procuradoria Regional Eleitoral) pediu que a candidatura de ambos fosse indeferida, sob suspeita de ligação com milicianos que atuam na Baixada Fluminense. O TRE (Tribunal Regional Eleitoral), no entanto, liberou as candidaturas às vésperas da eleição.
A política de Canella
Canella foi preso pela segunda vez em três meses. O político tem como base eleitoral o município de Belford Roxo, onde foi prefeito entre 2025 e 2026. A defesa afirmou que não teve acesso à decisão.
No passado ele era aliado de Waguinho (Republicanos), prefeito de Belford Roxo entre 2017 e 2024. Em 2022, Waguinho apoiou a eleição de Lula (PT), enquanto Canella, Jair Bolsonaro (PL).
"Canela era aliado do Waguinho, depois de juntou com Cláudio Castro (PL). Dessa junção, ações letais começaram a ocorrer no Complexo do Roseiral [um conjunto de favelas em Belford Roxo]. Transformaram o conflito do CV com a milícia num grande projeto de pacificação", afirma o professor José Cláudio Souza Alves, da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio).
Antes de ser eleito prefeito em 2024, Canella foi o deputado estadual mais votado do Rio em 2022, com 181.274 votos. O segundo mais votado foi Douglas Ruas (PL), que, neste ano, foi eleito governador do estado no primeiro turno.
Canella foi cotado ao posto de sucessor de Cláudio Castro para o governo do Rio. Depois, se tornou pré-candidato ao Senado, apoiado por Flávio Bolsonaro (PL). A suplente dele seria a mãe de Flávio, Rogéria Bolsonaro (PL).
Em julho deste ano, ele foi detido em flagrante pela Polícia Federal. Havia contra ele um mandado de busca. Durante a busca, os policiais encontraram um fuzil Colt, de calibre 5.56, de uso restrito, em seu carro.
A defesa do deputado eleito afirma que o fuzil estava acautelado para o PM responsável pela escolta de Canella.
A PF, no entanto, suspeita que o coronel da PM da reserva e vereador do Rio Jorge Canella (União) foi o responsável por providenciar a arma. Jorge não é parente de Márcio Canella, mas usa o sobrenome para identificar proximidade com o político.
Suspeitas sobre Canella
Para tentar barrar o registro da candidatura de Canella neste ano, a PRE apontou que existe "vinculação político-administrativa eleitoral" entre ele e dois chefes de organizações paramilitares e milícias privadas. Também apontou que Canella já era investigado no STF (Supremo Tribunal Federal).
Canella nomeou secretários ligados à milícia na sua gestão à frente da prefeitura de Belford Roxo: Fábio Augusto de Oliveira Brasil, conhecido como Fabinho Varandão, e Luiz Eduardo Santos de Araújo, o Eduardo Araújo. Ambos tentaram disputar a eleição de 2024, mas tiveram as candidaturas indeferidas pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) justamente por envolvimento com milícias armadas.
Fabinho Varandão foi denunciado pelo MP (Ministério Público) e é réu em ação penal. Segundo a investigação, ele tem posição de chefe de uma milícia armada, com "exercício de domínio paramilitar violento nos bairros Lote XV e Wona, mediante a prática reiterada de extorsões, o monopólio forçado de sinal de televisão e internet, além do porte ilegal de armas de fogo". Ele nega as acusações.
Eduardo Araújo, policial militar e ex-vereador, já foi condenado a oito anos de prisão por constituição de milícia privada. "A organização por ele integrada domina coercitivamente os bairros Babi, Roncale, Santa Maria, Nova Aurora e Xangri-Lá", apontou a investigação. O TSE o qualificou, em 2024, como "braço político" e interlocutor do grupo criminoso armado junto ao poder público. Ele também nega as acusações.
"Ciente de que ambas as lideranças haviam sido barradas pelo TSE em dezembro de 2024 justamente por envolvimento com milícias armadas, Márcio Canella nomeou Fabinho Varandão para o cargo de secretário municipal de Esporte e Eduardo Araújo para o de secretário municipal de Indústria e Comércio, em 2 de janeiro de 2025, inserindo-os diretamente no primeiro escalão de seu ecossistema político", sinalizou a PRE.
Após serem exonerados, os supostos milicianos passaram a se empenhar na candidatura da Canella. "Fabinho Varandão veiculou peças chamando Canella de 'meu grande amigo e líder', com slogans '#FECHADO COM CANELLA' e '#TÔ COM CANELLA', e promovendo ostensivamente a candidatura da Canella. "Fabinho Varandão veiculou peças chamando Canella de 'meu grande amigo e líder', com slogans '#FECHADO COM CANELLA' e '#TÔ COM CANELLA', e promovendo ostensivamente a candidatura sob a chancela 'MEUS DEPUTADOS!'. Por sua vez, Eduardo Araújo confeccionou e distribuiu panfletos.



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